Tecnologia e Manejo

07/03

Estudo da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia identifica nove espécies silvestres da mandioca

Estudo da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia identifica nove espécies silvestres da mandioca

 

Um estudo conduzido pelo pesquisador boliviano Moises Mendonza e orientado pela pesquisadora Taciana Cavalcanti na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília (DF), resultou na identificação de nove (9) espécies silvestres da mandioca, planta nativa do Brasil que tem importante papel na alimentação dos brasileiros. Os chamados "parentes silvestres" das espécies cultivadas são espécies nativas que compartilham ancestralidade relativamente recente com plantas cultivadas. A importância da descoberta se deve ao fato de que essas espécies representam uma fonte potencial importante de características valiosas para programas de melhoramento, como características nutricionais, de adaptabilidade a condições climáticas extremas e resistência a pragas e doenças.

As espécies silvestres começaram a ser descritas há quase dois anos como parte da pesquisa de doutorado em botânica de Moises pela Universidade de Brasília (UnB), e foram identificadas na região Centro-Oeste do Brasil. Uma delas foi encontrada na região da Chapada dos Veadeiros, no município de Alto Paraíso de Goiás (GO), e batizada de Manihot robusta. Segundo Moises, a espécie é bem diferente da raiz que as pessoas conhecem, mas, para a ciência, é considerada uma espécie silvestre. "A região tem se mostrado um importante centro de diversidade do gênero", afirmou o pesquisador em trabalho publicado em 2015. Neste artigo, além da robusta, foram descritas mais duas espécies, a Manihot debilis e a Manihot minima. Além das encontradas na Chapada dos Veadeiros, outras três descritas em 2015 também são originárias dos municípios de Cavalcanti e Uruaçú, ambos em Goiás: Manihot erectaManihot glauca e Manihot inflexa.

As três últimas espécies silvestres foram descobertas em 2016, também em Goiás, na região da Serra do Tombador: Manihot ebracteata, Manihot purpurea e Manihot tombadorensis. A descrição foi feita em artigo publicado em setembro de 2016. Em comum, as novas espécies compartilham o fato de as plantas serem bastante diferentes da mandioca conhecida pela maioria dos brasileiros. Segundo o pesquisador, o parentesco estaria na raiz alimentícia. "Imaginei que ia encontrar espécies novas quando cheguei aqui, mas identificar nove foi algo além das minhas expectativas. Acredito que devam existir muitas outras espécies na região central do Brasil", afirmou o agrônomo.

Pesquisador também estuda a relação evolutiva entre as espécies

Além de realizar a taxonomia das espécies, que é a identificação de características e atribuição de nome conforme as normas válidas cientificamente, Moises Mendoza também realiza um trabalho de revisar a classificação já existente, corrigir erros de especificação e, por último, estudar as relações evolutivas entre as espécies, a chamada filogenia. Todo o estudo está sendo feito nos laboratórios da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, que possui um dos herbários mais representativos do Brasil no que se refere ao bioma Cerrado, com cerca de 108 mil exsicatas (amostras de plantas secas). A observação em herbário complementa o trabalho prévio do pesquisador realizado nas análises de campo.

Já os laboratórios são utilizados para desenvolver a análise genética das plantas com o objetivo de mapear o gênero ao qual pertencem, seus ancestrais de descendentes. De acordo com a pesquisadora Taciana Cavalcanti, orientadora de Moises, antes essa análise era feita com base apenas na morfologia da planta, mas, com o avanço das pesquisas genética, hoje os estudos são feitos diretamente com base no DNA. "Para fazer a análise do código genético é utilizado um sistema de computador que calcula a relação entre as espécies com base em marcadores moleculares, que são genes que servem como referência", explica a pesquisadora. Quanto mais perto de 1, maior a chance de parentesco e a probabilidade de se utilizar a espécie silvestre no melhoramento da espécie cultivada.

Mandioca teria se originado no Sudoeste da Amazônia

A mandioca foi descrita pela primeira vez pelo médico e botânico austríaco Heinrich Crantz, que teria encontrado a espécie no sudoeste da Amazônia. Atualmente, o estado de Goiás tem se mostrado o terreno onde mais espécies são encontradas. A confirmação está na Lista de Espécies da Flora Brasileira, onde dos 87 tipos de Manihot descritos, 57 têm seu centro de origem no Centro-Oeste, sendo 50 no estado de Goiás. E foi justamente essa variedade de espécies que motivou o agrônomo boliviano a estudar a mandioca e seus parentes silvestres no Brasil.

Apesar das recentes descobertas, ainda predomina uma grande falta de informação sobre os parentes silvestres das espécies de plantas cultivadas, e muitas encontram-se com sua sobrevivência ameaçada, seja pela destruição dos ambientes naturais onde ocorrem, seja pela introdução de espécies exóticas invasoras. Daí a importância de os pesquisadores dedicarem esforços à conservação dos parentes silvestres das espécies de plantas cultivas no País, de modo a torná-las disponíveis para uso pelos atuais e futuros programas de pesquisa.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a mandioca é plantada em mais de 80 países, sendo o maior produtor a Nigéria, seguido pela Tailândia e pelo Brasil. De acordo com a FAO, em 2008 foram produzidas aproximadamente 25,9 milhões de toneladas de mandioca, sendo 8,9 milhões somente no Brasil. Considerada a terceira maior fonte de carboidratos nos trópicos, estima-se que a espécie faça parte da dieta básica de mais de meio bilhão de pessoas.

 

Irene Santana (MTB/DF 11354) 
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia 
 
Telefone: (61) 3448-4769

 

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)

www.embrapa.br/fale-conosco/sac/



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