Tecnologia e Manejo

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Nova subespécie de agente causador de mastite bovina

Nova subespécie de agente causador de mastite bovina

 

A mastite bovina é um processo inflamatório da glândula mamária causada principalmente por micro-organismos. A transmissão dos patógenos para os animais ocorre a partir do ambiente, da ordenhadeira e utensílios de ordenha, e até mesmo do próprio ordenhador. É considerada a doença que mais onera a indústria leiteira, afetando diretamente o produtor, a indústria processadora e o consumidor final.

 

Os prejuízos com a doença decorrem da redução na produção, descarte do leite, redução da qualidade do leite, menor rendimento dos derivados lácteos, aumento da mão de obra com os animais, gastos com medicamentos e honorários veterinários, descarte precoce de fêmeas e morte ocasional de animais. Estima-se que a perda de produção de leite com a mastite no Brasil seja da ordem de 10 a 15%, o que representaria entre 3,5 e 5,2 bilhões de litros/ano em relação a produção de 35 bilhões de litros em 2016.

 

Dentre os agentes causadores da mastite bovina estão as prototecas, algas aclorofiladas encontradas principalmente em ambientes com grande umidade e presença de matéria orgânica, incluindo solo, água e terra de propriedades rurais, além de fezes de animais de produção. Pesquisas desenvolvidas na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, câmpus de Botucatu, em parceria com a Universidade Federal de Lavras (UFLA) e o National Research Council, da Itália, descreveram uma nova subespécie de agente causador de mastite bovina, que recebeu denominação que faz referência ao Brasil, e foi publicada em reconhecida revista internacional da área.

 

O agente

 

As espécies do gênero Prototheca mais frequentemente responsáveis pela ocorrência de mastite são P. zopfii e P. wickerhamii. Nos últimos anos, o aumento do número de registros de prototecose mamária em vários países, incluindo no Brasil, tem sido motivo de preocupação entre os pesquisadores das áreas de mastite bovina e qualidade do leite. P. zopfii (genótipo 2) é a principal espécie relacionada com a mastite bovina em todo o mundo, incluindo no Brasil. No entanto, na última década, P. blaschkeae também tem sido descrita como causa de mastite bovina na Alemanha, Portugal e Itália. Até o momento, a espécie não tinha sido relatada no Brasil.

 

A infecção mamária ocorre via ascendente pelo canal do teto das vacas a partir de algas provenientes do próprio local de criação dos animais, como explica o professor Marcio Garcia Ribeiro, do Departamento de Higiene Veterinária e Saúde Pública, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, câmpus de Botucatu. “Esses ambientes geralmente apresentam excesso de material orgânico, fezes ou umidade. A infecção pode ocorrer também por contaminação do equipamento e utensílios de ordenha, da cânula em tratamentos intramamários, ou por traumatismos na glândula mamária. A prototecose mamária é observada principalmente na forma clínica, com alterações no leite (mudança de cor, presença de grumos) e sinais de inflamação na glândula mamária (hiperemia, edema, áreas endurecidas à palpação), em casos isolados ou em surtos. Ocasionalmente, as infecções são subclínicas ou ainda no período seco do animal”.

 

O estudo

 

Apesar do conhecimento da alga há várias décadas como agente de mastite bovina não existe, até o momento, nenhum antimicrobiano, antifúngico, algicida ou qualquer outro fármaco com atividade microbicida que tenha ação eficaz e segura no tratamento por via intramamária e/ou parenteral. “Atualmente, recomenda-se o diagnóstico precoce, a segregação dos animais, a secagem química dos quartos, ou mesmo o descarte do animal quando vários quartos mamários estão acometidos”, esclarece o professor Ribeiro. “Tais medidas são necessárias para evitar a disseminação do micro-organismo entre os quartos mamários do mesmo animal ou entre outros animais do rebanho, em virtude da destruição do tecido mamário causado pela alga, comprometendo a vida produtiva do animal”.

 

Observando-se esse panorama, em 2013 foi iniciado projeto de doutorado da pós-graduanda Ana Carolina Alves, do programa de pós-graduação em Medicina Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, câmpus de Botucatu, bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), intitulado “Caracterização genotípica e concentração algicida mínima in vitro da guanidina em linhagens de Prototheca zopfii isoladas de vacas com mastite clínica e subclínica”.

 

A tese, orientada pelo professor Ribeiro, foi defendida em 2016. A ausência de fármaco efetivo para o tratamento dos animais infectados pela alga tem motivado, em todo mundo, estudos “in vitro” com intuito de identificar produtos com potencial para o tratamento, incluindo em casos de mastite bovina.

 

A guanidina, objeto do estudo da pós-graduanda, é um fármaco da nova geração de antissépticos/desinfetantes utilizado com ação microbicida em piscinas de uso humano. Na pesquisa desenvolvida na FMVZ, a guanidina revelou ação algicida “in vitro”, em baixas concentrações, diante de 75 estirpes de P. zopfii isoladas de casos de mastite bovina, clínica e subclínica, obtidas de animais de quatro estados do Brasil. “O resultado indicou que a guanidina pode ser utilizada com ação antisséptica ou desinfetante em propriedades com casos de prototecose mamária em vacas, como produto para soluções antissépticas de imersão dos tetos na pré ou pós ordenha, utilizadas na profilaxia da mastite, ou mesmo para estudos futuros no tratamento intramamário”, comenta Ana Carolina.

 

O estudo também objetivava investigar a presença de P. blaschkeae. Até então não identificada no Brasil, essa espécie da alga tem sido registrada recentemente em casos de mastite na Europa e poderia ser introduzida no país por animais importados com prototecose mamária.

 

Os pesquisadores brasileiros fizeram contato com especialistas da National Research Council da Itália, liderados pelo doutor Stefano Morandi, visando a obtenção de auxílio na caracterização genotípica de 27 prototecas, estocadas há vários anos no laboratório de Microbiologia da FMVZ, provenientes do serviço de Diagnóstico de Mastite sob a responsabilidade do professor Ribeiro e suporte do técnico em laboratório Fernando José Paganini Listoni, além de cinco isolados cedidos pelo professor Geraldo Márcio Costa da Universidade Federal de Lavras.

 

Foi observado, no Brasil, que quatro isolados apresentavam características de colônias, à microscopia óptica e eletrônica, distintas de P. zopfii, conhecida como a espécie mais comum de mastite bovina. Estudos complementares na Itália utilizando técnicas moleculares de vanguarda, testes bioquímicos adicionais, de características de cultivo (em diferentes condições de pH, na presença de NaCl, utilização de nutrientes), atividade enzimática e de composição celular revelaram que estes isolados não eram compatíveis com as demais prototecas conhecidas, apesar de certa similaridade com P. blaschkeae. Tal resultado fundamentou a descrição de nova subespécie de prototeca que, em homenagem ao Brasil, foi denominada P. blaschkeae subespécie brasiliensis, publicada em 2017 na revista International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, uma das mais respeitadas e rigorosas revistas internacionais de classificação taxonômica de micro-organismos.

 

Outras publicações geradas do mesmo projeto foram divulgadas nas revistas Journal of Dairy Science (Molecular typing and diferences in biofilm formation and antibiotic susceptibilities among Prototheca strains isolated in Italy and Brazil) e Letters in Applied Microbiology (In vitro effect of guanidine on Prototheca zopfii genotype 2 strains isolated from clinical and subclinical bovine mastitis)importantes periódicos nas áreas de mastite/qualidade do leite em vacas e microbiologia veterinária, respectivamente, que contaram, além dos pesquisadores citados, com a participação de pós-graduandos e dos professores Helio Langoni e José Carlos de Figueiredo Pantoja, do Departamento de Higiene Veterinária e Saúde Pública da FMVZ,  além do pesquisador Tomaz Jagielski, do Departamento de Microbiologia Aplicada da Universidade de Varsóvia, na Polônia.

 

“Estamos muito satisfeitos pelo o resultado inédito do estudo, e também em virtude da primazia de denominar a nova subespécie em homenagem ao país de identificação, do primeiro registro no Brasil da espécie P. blaschkeae em vacas com mastite, além da divulgação dos resultados em periódicos internacionais bem conceituados na área de especial interesse dos pesquisadores”, afirma Ana Carolina. “São resultados obtidos em colaboração com renomados pesquisadores de grupos de estudo internacionais que vêm ao encontro dos anseios de internacionalização dos cursos de pós-graduação da Unesp”, ressalta o professor Marcio Garcia Ribeiro.

 

Fernando José Paganini Listoni (técnico do Laboratório de Microbiologia), Ana Carolina Alves (doutoranda) e Márcio Garcia Ribeiro (orientador).

 

equipe do Laboratório de Microbiologia da FMVZ: André da Rocha Mota (mestrando), Fernando Listoni (técnico em Microbiologia), Carolina de Paula (doutoranda), Ana Carolina Alves (doutoranda), Simony Guerra (pós-graduanda) e Márcio Garcia Ribeiro (Professor de Enfermidades Infecciosas dos Animais).

 

Assessoria de imprensa UNESP 



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