Tecnologia e Manejo

17/05

CEVA Sa√ļde Animal: Artigo - Secagem de vacas leiteiras

CEVA Sa√ļde Animal: Artigo - Secagem de vacas leiteiras

 

Como é conhecido, o período seco é o intervalo entre as lactações no qual as vacas de leite devem ficar sem serem ordenhadas em preparo para a próxima lactação. Normalmente este período dura aproximadamente 60 dias, porém sob certas condições de manejo e nutrição específicas, períodos secos mais curtos de até 45 dias podem ser viáveis. Um grande número de pesquisas mostram que períodos secos muito longos maiores que 70 dias tendem a aumentar a incidência de problemas metabólicos no pós parto; e períodos de secagem menores que 45 dias normalmente fazem com que a vaca produza menos leite na lactação subsequente – desta forma não sendo indicados. Além disso, vacas com gestações gemelares e picos de estresse térmico ambiental tendem a antecipar partos em até 2 semanas. Portanto, a decisão da duração do período seco depende das instalações disponíveis e do sistema de manejo de cada rebanho.

 

Em geral, o processo de secagem deve ser efetuado de forma abrupta, associado à utilização higiênica de antibióticos intramamários específicos para vacas secas em conformidade com a duração do período seco de forma a evitar resíduos de antibióticos após o parto. O antibiótico utilizado também deve ser específico de forma a tratar os principais tipos de infecções que ocorrem no rebanho – isso é importante pois cada rebanho tende a ter uma característica individual quanto aos patógenos mais comuns em vacas contaminadas. Nesse sentido a cultura do leite de forma a identificar possíveis patógenos, associado a análise de contagem de células somáticas de cada animal, e em casos especiais até mesmo de quartos individuais, antes da secagem e após o parto são de suma importância no gerenciamento veterinário de mastites clínicas e sub-clínicas, assim como avaliar as taxas de cura durante o período seco. Outro aspecto importante que deve ser explorado de forma proativa pelo produtor e seus consultores é o descarte de animais mais velhos contaminados por certos tipos de 
micro-organismos como, estafilococos aureus e animais em qualquer idade com teste de cultura positiva para micoplasma. Estes animais, cronicamente contaminados por estas bactérias, dificilmente têm um sucesso no tratamento antibiótico e representam um alto risco para o restante do rebanho.   

 

O manejo de vacas no período pré-secagem é muito variável nas fazendas brasileiras e, na verdade, em todo o mundo. Infelizmente, muitas produtores com o intuito de diminuir a produção de leite no final da lactação, submetem as vacas, em especial as mais produtoras, a períodos de restrição alimentar e eventualmente hídrica que pode durar de 1 a 4 semanas antes de realizar o procedimento de secagem. Este manejo é conhecido como secagem gradual. Obviamente, restringir água ou alimentos no período pré-secagem causa um grande estresse no animal e, portanto, este tipo de manejo não é recomendado por inúmeros motivos de ordem fisiológica para o animal, não inibe problemas de vazamento de leite após secagem (Gott, Rajala-Schultz et al. 2016), aliado ao fato desses animais se encontrarem no terço final de gestação, fase crítica para o desenvolvimento do bezerro no útero da vaca. Dessa forma, vacas lactantes devem ser mantidas em suas dietas balanceadas e rotina de ordenha constante até o momento da secagem, que deve ser conduzida preferencialmente de forma abrupta. Após a secagem as vacas devem ser mantidas em dietas especificamente formuladas para vacas secas, com particular atenção em tentar evitar, por exemplo, excesso de potássio, que pode atrapalhar o mecanismo de remoção de cálcio dos ossos em adaptação à nova lactação. Vale ressaltar que trocas de dietas, diminuição de frequência de ordenha ou movimentações frequentes para diferentes lotes geram um grande estresse no animal e devem ser evitados a todo custo.

 

Durante esta “pausa” entre lactações, a glândula mamária ou simplesmente “úbere” tem que passar por um processo bastante ativo a nível celular e endócrino de involução e posterior renovação deste tecido glandular produtor de leite em preparação para a próxima lactação. Como seria de se esperar, vacas com maiores produções de leite no momento da secagem são mais propensas a se contaminarem com micro-organismos causadores de mastite (Newman, Rajala-Schultz et al. 2010) e, portanto, o processo de secagem em vacas produzindo mais de 
15 kg no dia da secagem tende a ser mais problemático. Por exemplo, maiores produções de leite no momento da secagem induzem mais edema, dor e casos de vazamento de leite, que podem afetar mais de 40% das vacas sob certas condições de manejo, atrasando a formação do tampão de queratina no canal do teto, o que representa uma importante via de contaminação do úbere (mastites).

 

Não se sabe muito sobre os efeitos desses diferentes tipos de estresse na vaca, na próxima lactação ou mesmo no feto da vaca que está gestante no momento da secagem. Obviamente estas interações de estresse e consequente cascata hormonal são extremamente complexas. Vários grupos de pesquisa descreveram recentemente que o estresse térmico, por exemplo, induz uma condição de resistência de insulina na vaca parecida de certa forma com a diabetes em humanos: o estresse térmico desencadeia um mecanismo de sobrevivência que aumenta o aporte de energia (glicose) para o sistema imune do animal. Porém, já se sabe que isso afeta o bezerro no útero da vaca gestante, fazendo com que a vaca adulta proveniente de uma mãe exposta ao estresse térmico produza menos leite por toda sua futura vida produtiva!

 

Uma característica a ser manejada muito cuidadosamente durante o período seco é a condição corporal das vacas – normalmente classificado de 1 (vacas extremamente magras) a 5 (vacas extremamente gordas). Sabe-se que animais mais gordos (acima de 3.5 na escala de condição corporal mencionada anteriormente) diminuem sua ingestão de matéria seca muito antes em relação ao parto que animais com condição corporal mais ideal (3.0 a 3.5). Estas mesmas vacas mais gordas tem claramente mais problemas metabólicos no pós-parto e sua fertilidade medida em termos de taxa de concepção é muito pior, principalmente para vacas que perdem mais peso nas primeiras semanas após o parto (Carvalho, Souza et al. 2014). Pesquisas em andamento também indicam que vacas que perdem condição corporal entre o momento da secagem e o parto tem muito mais problemas de saúde no pós-parto e são descartadas do rebanho mais frequentemente. Portanto, especial atenção é necessária em se manejar a condição corporal de vacas leiteiras no período pré-secagem, peri-parto, assim como no 
pós-parto.

 

Uma série de ferramentas e técnicas estão atualmente disponíveis ao produtor e veterinários para melhorar a condição da vaca durante a secagem e período seco. Existe por exemplo uma forte tendência em se trabalhar com períodos secos mais curtos de aproximadamente 45 dias que utilizam uma dieta única de média-baixa energia, ao contrário do manejo de duas dietas conhecido como “far-off e close-up”, que parece estar relacionada a menores incidência de problemas metabólicos no pós-parto (Dann, Litherland et al. 2006). Pesquisas recentes também indicam que altas taxas de lotação, principalmente nas semanas próximas ao parto, prejudicam a ingestão de matéria seca, o que pode causar maiores problemas metabólicos no pós-parto. Portanto, é recomendado uma taxa de lotação não maior que 80% no período de transição (3 semanas antes a 3 semanas pós-parto). Além disso, vacas primíparas devem, se possível, ser mantidas separadas de vacas mais velhas antes e depois do parto de forma a aumentar a ingestão de matéria seca nestes animais mais jovens – pois o padrão alimentar de uma vaca mais jovem é muito diferente de vacas mais velhas que tendem a comer menos vezes ao longo do dia e em maiores porções por vez.

 

Atualmente no Brasil, também existem estratégias e apresentações farmacológicas que podem diminuir problemas relacionados ao vazamento e mesmo ao excesso de edema do úbere pós-secagem. Por exemplo, selantes de teto e mais recentemente, o facilitador de secagem que diminui as concentrações de prolactina (como a cabergolina) ajudam em muito com o problemas de vazamento de leite pós-secagem e diminuem a chance de contaminação por bactérias e outros patógenos invasores. Na verdade, drogas que diminuem a prolactina também diminuem o acúmulo de leite na glândula e o excesso de edema, assim como melhoram a imunidade celular (maior concentração de células de defesa) e inata do úbere (aumenta as concentrações de lactoferrina – um bacteriostático natural do leite), protegendo a glândula nos dias mais críticos durante a involução após a secagem (Bach, De-Prado et al. 2015, Boutinaud, Isaka et al. 2016).

 

Autor: Alex de Souza, médico veterinário, PhD em reprodução animal, atua na gerência de técnica de bovinos da Ceva Saúde Animal.



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