Tecnologia e Manejo

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Pesquisa do Instituto Agronômico de Campinas busca desenvolver cultivar de pinhão manso mais produtivo

Pesquisa do Instituto Agronômico de Campinas busca desenvolver cultivar de pinhão manso mais produtivo

 

O Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, trabalha com melhoramento genético de 95 espécies como café, cana-de-açúcar, citros, feijão, milho, hortaliças, flores, frutas, seringueira e outras utilizadas na alimentação da população e como matéria-prima para a indústria. Nesse contexto, o Centro de Recursos Genéticos Vegetais do IAC, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, vem obtendo expressivos resultados. Uma das pesquisas do Centro, em andamento desde 2007, é o melhoramento genético com auxílio de ferramentas biotecnológicas do pinhão manso (Jatropha curcas L), espécie considerada importante fonte alternativa e promissora para produção de biodiesel.

 

O programa de pesquisa do IAC conta com a parceria da Petrobras desde 2009, quando o projeto foi aprovado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em sua primeira etapa o programa já captou cerca de R$ 675 mil.


Com o desafio de tornar a cultura de pinhão manso uma alternativa viável aos agricultores brasileiros, o IAC vem direcionando esforços ao desenvolvimento de cultivares estáveis de pinhão manso, até o momento inexistentes no mundo. O objetivo é reunir alta produtividade, uniformidade de maturação, baixo teor de substâncias tóxicas, aumento do teor do óleo, resistência à seca e à acidez do solo e a pragas e doenças.


Esses esforços têm tornado o IAC um dos líderes nacionais de ciência e tecnologia relativa à oleaginosa, permitindo alcance de resultados mundialmente inéditos, adotando estratégias biotecnológicas que incluem a busca de genes determinantes para a elevação das qualidades agrícolas e ambientais do pinhão manso. “Graças às tecnologias e biotecnologias empregadas, hoje temos disponível, em nossa coleção de trabalho, híbridos raros ou inexistentes na natureza e inéditos em nível mundial”, afirma a pesquisadora do IAC e coordenadora do projeto, Daniela de Argollo Marques.


Na primeira etapa do programa foram desenvolvidas metodologias de hibridação interespecífica, utilizando técnica de resgate in vitro de embriões imaturos quando havia incompatibilidade genética entre a planta mãe (pinhão manso) e planta “pai” ou doadora de grãos de pólen (espécies do mesmo gênero que o pinhão manso). “Também foram realizados estudos para estabelecimento de protocolos para clonagem in vitro de plantas elites pré-selecionadas e para a avaliação da diversidade genética com marcadores moleculares”, diz Marques. 

 

Alguns dos resultados obtidos foram publicados em revistas científicas especializadas e outros apresentados em anais de eventos nacionais e internacionais.


Recentemente, o conjunto dos resultados das pesquisas com o pinhão manso no IAC foi publicado no capítulo “Breeding and Biotechnology of Jatropha curcas” do livro “Jatropha Challanges for a New Energy Crop”, com circulação internacional e lançado pela editora mundialmente reconhecida Springer Science.Além de Marques, o projeto conta com a colaboração dos pesquisadores do IAC, Walter José Siqueira e Carlos Augusto Colombo, e da pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), Roseli Aparecida Ferrari. Há ainda a participação de cinco bolsistas e quatro alunos de pós-graduação.

 

Próximos passos

A segunda etapa do projeto, que vai até novembro de 2015, busca avançar ainda mais no caminho do lançamento de uma cultivar segura para o mercado, que carece de matérias-primas sustentáveis no cenário energético atual.


O pinhão manso é uma planta arbustiva e perene, com ampla distribuição geográfica. É encontrada nas regiões tropicais e subtropicais, dotada de valor folclórico, utilizada para aplicações medicinais, na indústria de velas, pesticidas e na recuperação de solos degradados, devido às raízes perenes e profundas. “A espécie apresenta alto teor de óleo de excelente qualidade em suas sementes, o que a torna bastante promissora para produção de biocombustível”, diz a pesquisadora. 


Segundo Marques, a J. curcas possui alta produção de sementes, uma média de 2.200 toneladas por hectare, por ano, e elevado teor de óleo, uma média de 30% a 40%, o que atraiu a atenção mundial para a utilização dessa oleaginosa como biocombustível. “A qualidade do óleo está ligada à composição de ácidos graxos com maior teor de ácido oleico em relação ao ácido linoleico, dando maior estabilidade oxidativa ao óleo e ao biodiesel gerado”, explica a pesquisadora do IAC.


Os derivados de petróleo e gás natural são responsáveis por 80% da energia utilizada no mundo. Segundo dados da edição 2013 do relatório estatístico anual da British Petroleum, as reservas mundiais de petróleo atingiram 1.668,9 bilhões de barris em 2012, quantidade suficiente para garantir exatos 52 anos e nove meses de produção mundial de energia. “Tal informação é preocupante, uma vez que se trata de energia não renovável. Assim, a mudança de matriz energética mundial com a busca de energia renovável é extremamente necessária”, considera Marques.


Segundo a pesquisadora do IAC, o óleo contido nas sementes do pinhão manso pode ser facilmente transformado em biodiesel de excelente qualidade para substituir parcial ou totalmente o diesel de petróleo, sendo um combustível renovável e biodegradável. “O cultivo de pinhão manso em larga escala é de grande interesse no que diz respeito ao cenário da crise energética, reduzindo emissão de carbono e aumentando o rendimento dos agricultores”, afirma.


Para Marques, o Brasil sai na frente, pois produz biocombustíveis de maneira competitiva já há algum tempo. “O País possui relativa abundância de recursos naturais, de recursos humanos e, principalmente, de eficiência tecnológica desenvolvida por seus pesquisadores e técnicos”, afirma. Essa produção, em grande parte, é baseada no etanol a partir da cana-de-açúcar e no biodiesel de plantas oleaginosas, como soja, girassol, gergelim, mamona, babaçu e dendê.


Recentemente, o pinhão manso foi incluído no Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), que tem o objetivo de implementar de forma sustentável, técnica e economicamente viável a produção e uso do biodiesel. A oleaginosa foi incluída no programa por ser altamente promissora como fonte energética renovável do ponto de vista econômico e social.


O potencial produtivo de óleo do pinhão manso por hectare se sobressai em comparação a diversas outras culturas. Segundo a pesquisadora, foi constatado que é possível obter até 8.000 quilos de óleo de pinhão manso, dependendo do genótipo e da tecnologia de produção empregada. Para se ter uma ideia, a soja apresenta rendimento médio de 375 a 600 quilos de óleo por hectare e a mamona, de 350 a 1.188 kg/ha.


Além do seu grande potencial produtivo, a oleaginosa é de fácil cultivo e baixo custo de produção. “O pinhão manso pode ser explorado economicamente em quase todas as regiões brasileiras. E o incentivo de seu plantio atende perfeitamente às diretrizes de caráter social do PNPB, como a inclusão social do trabalhador rural, a fixação do homem no campo e o apoio ao agricultor familiar”, explica a pesquisadora.


Porém, Marques pondera que apesar de o pinhão manso ter qualidades já comprovadas em pesquisas, a oleaginosa é ainda uma espécie selvagem. “Apesar de promissora, devido à qualidade e quantidade de óleo em suas sementes, o pinhão manso ainda está em processo de domesticação e não há conhecimento, até o momento, de nenhuma cultivar segura, com estabilidade e uniformidade, para a expansão vigorosa dessa cultura”, afirma.


Outra preocupação é a ausência de um mercado estruturado para o produto e o desinteresse das indústrias de extração de óleo. Esse cenário poderia gerar instabilidade para o agricultor, já que o pinhão manso é perene e não permite a migração para outra cultura mais rentável, em caso de prejuízo. “A falta de uma cultivar segura de pinhão manso não permite recomendações técnicas confiáveis sobre a melhor forma de propagação, população de plantio, adubação, manejo, época, tipo de colheita, pragas e doenças. E a inexistência dessas recomendações tornam incertos eventuais investimentos comerciais”, explica Marques.


Autores/Fonte: Por Carla Gomes (MTb 28156) e Jhonatas Simião (Estagiário) – Assessoria de Imprensa – IAC



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