Tecnologia e Manejo

21/09

Semex - Primeiras 24 horas de vida de um bovino: uma corrida contra o tempo

Semex - Primeiras 24 horas de vida de um bovino: uma corrida contra o tempo

 

Uma das grandes expectativas na indústria animal é o nascimento de uma bezerra ou bezerro. Nesse caso todo investimento em genética e manejo pode ser recompensado, pois a meta futura seria de ter um animal que representa um indivíduo produtivo e eficiente em operações comerciais, ou uma futura campeã em fazendas focadas em genética e exposições. De qualquer forma, a partir do momento em que nasce um bezerro, há consequentemente uma grande necessidade de agir de forma eficiente para fornecimento de colostro e ações para as primeiras horas. 

 

Apesar de ser um procedimento tido como obrigatório e essencial em fazendas ao redor do mundo, muitas vezes ainda não é realizado de forma eficiente. E, segundo os dados mais recentes, agir de forma eficiente nas primeiras horas pode ter um impacto positivo e duradouro em toda a vida produtiva do animal.

 

1.    Placenta em Bovinos


O tipo de placenta em bovinos é epiteliocorial, ou seja, não permite o contato do sangue da mãe com o sangue fetal. Sendo assim, é fundamental a passagem de anticorpos (Imunoglobulinas IgG, IgM e IgA) para o ruminante recém-nascido através do colostro, uma vez que o sistema imune ainda é imaturo e precisa se desenvolver. Portanto, os anticorpos vão servir de proteção para os três primeiros meses de vida. Esse caso denomina-se imunidade passiva, que é a passagem de anticorpos da mãe para proteção temporária do recém-nascido até que o sistema imunológico deste se torne ativo e responsivo a vacinas, além de capaz de reprimir infecções.

 

2.    Colostro


Devido à importância estratégica nesse artigo vamos considerar colostro por definição como sendo a secreção produzida e acumulada na glândula mamaria nos dias antes do parto, e será apenas o leite de primeira ordenha, a partir daí seria o leite de transição. 

 

Do ponto de vista nutricional o colostro possui quase o dobro de sólidos total que o leite normal (23.9 VS 13) e além da proteção potencial com sua alta quantidade de imunoglobulinas é muito importante para nutrição dos recém-nascidos nas primeiras horas de vida.

 

3.    Tempo, Quantidade e Qualidade de Colostro


Um dos grandes desafios em fazendas ao redor do mundo para o fornecimento de colostro de forma adequada é a necessidade do fornecimento do colostro ser o mais rápido possível após o nascimento do bezerro. Por quê? Na verdade, a habilidade do intestino delgado do bezerro de absorver as imunoglobulinas declina rapidamente nas primeiras horas de vida. Portanto quanto mais tempo passa após o nascimento, menos Imunoglobulinas (anticorpos) são absorvidas. Por isso é necessário agir de forma rápida. É importante ainda ressaltar que depois de 24 horas do nascimento não há mais absorção, ou seja, no segundo dia de vida o efeito de fornecimento de colostro é apenas para proteção local no intestino e nutricional.

 

Outro fato muito relevante é que existe uma meta de atingir 10mg/ml de IgG no sangue do bezerro e para conseguir atingir esse patamar é importante a combinação de quantidade e qualidade de colostro. 

 

De maneira geral, em situações ideais seria o fornecimento de quatro litros de colostro (10% peso vivo do bezerro) de alta qualidade na primeira hora de vida. Mas é de extrema importância que esta quantidade seja fornecida no máximo em até seis horas de vida. 

 

Em alguns locais, onde se torna possível, existe um segundo fornecimento de colostro oito horas após o nascimento, sendo de dois a três litros. No entanto, de maneira geral o mais importante são as primeiras horas de vida e, como regra, quanto mais cedo melhor.

 

Em situações com mais ajuste fino é possível se testar a qualidade do colostro (colostrômetro, método de bolas, etc...) e tentar fornecer apenas colostro de boa qualidade. Nesse caso existe a opção de descongelar colostro para fornecimento ao bezerro quando o colostro da mãe testado não é de boa qualidade. 

 

O colostro pode ser conservado refrigerado em geladeira de 1º a -2º centígrados, em até 1 semana ou congelado por 1 ano. Normalmente o colostro fica armazenado congelado e é importante lembrar ao descongelar que a temperatura da água não deve ultrapassar 55º centígrados, pois pode afetar os anticorpos diminuindo a qualidade do colostro. 

 

Considerando que o intestino delgado do recém-nascido está apto para absorver moléculas grandes como as Imunoglobulinas é muito importante também que o colostro e o ambiente estejam mais limpos possíveis para minimizar a exposição do recém-nascido a agentes patogênicos.

 

4.    Metas e benefícios de colostragem eficiente

 

O principal benefício imediato de um programa de colostragem eficiente é o fato de a transferência passiva de anticorpos adequada diminuir muito os riscos de o bezerro ficar doente, impactando diretamente em desempenho e mortalidade. Na verdade, dados em várias partes do mundo mostram que a taxa de mortalidade é mais que o dobro em grupo de bezerras que não tiveram proteção adequada através do colostro. 

 

Além disso, alguns dados recentes mostram que bezerras que ingeriram maior quantidade de colostro tendem a dar mais leite durante a primeira lactação. Isso mostra que além de ser fundamental em sanidade nos primeiros meses, o colostro pode ter efeitos benéficos diversos no animal.

 

A metodologia de fornecer colostro pode ser eficiente como a utilização de mamadeira ou sonda esofágica, sendo que os dois métodos funcionam bem. Já deixar o bezerro com a mãe para que ele possa consumir o colostro mamando na vaca tem se mostrado pouco eficiente, devido a vários fatores como vigor do bezerro, tamanho dos tetos e profundidade do úbere. Dessa forma, recomenda-se tirar o leite da vaca e fornecer por mamadeira ou sonda esofágica. 

 

Uma vantagem da sonda esofágica, em operações maiores, é que este se apresenta como um método mais rápido, facilitando muito quando há vários animais e outros compromissos no lote de transição. 

 

Existe uma maneira prática de checarmos se uma bezerra recebeu quantidade adequada de colostro: coletando o sangue e mensurando por refratômetro a quantidade de proteína no soro em g/dl. Este é um teste prático, que pode ser realizado na fazenda e existem vários refratômetros comerciais para venda. Na situação, coleta-se o sangue do bezerro de 24 a 48 horas de vida e deixa separar o soro, depois com uma gota do soro em refratômetro se faz a leitura, a meta seria 5,5g/dl de proteína no soro. Alguns autores e consultores estabelecem a meta de 6,0 g/dl de proteína no soro. Na verdade, esse teste se mostra muito útil para checar eficiência de um programa adequado de colostragem.

 

5.    Conclusões


Na verdade, esse artigo trata de um conceito importante e muito difundido em pecuária de leite. No entanto, é relevante discuti-lo mais uma vez, pois devido aos desafios com o tempo e ou operacionais ainda há muito a melhorar em muitas fazendas no mundo. 

 

Portanto, se você é produtor de leite e pensa no futuro, refleta seriamente como está fornecendo colostro para seus animais recém-nascidos, uma vez que esse procedimento tem um impacto muito positivo e duradouro na vida daquele animal e na rentabilidade e sucesso da propriedade leiteira.

 

Sendo assim é de extrema importância quando fala-se em colostro:


- Quanto: quatro litros ou 10% peso vivo do bezerro;
- Quando: nas duas primeiras horas de vida do animal;
- Nunca: ultrapassar 6 horas de vida do bezerro para fornecimento do colostro.

 

Texto por:

 

Formado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), o doutor em Produção Animal, Flávio Junqueira, é jurado oficial da Associação Brasileira de Gado Holandês e membro do Conselho Técnico da Associação Mineira de Gado Holandês.

 

Na pecuária nacional, Flávio atua como consultor em rebanhos leiteiros nas áreas de medicina de produção, nutrição e reprodução, além de prestar consultoria para mais de 2 mil vacas em lactação. Já para rebanhos internacionais, o médico veterinário prestou consultoria em grandes rebanhos na região de Torreon, no norte do México, nos anos de 2008 e 2009. Entre 2009 e 2012, Junqueira também atuou como professor do curso de pós-graduação Latu Senso em Bovinocultura Leiteira, na Universidade Federal de Lavras.

 

Na Semex, Flávio atua como Coordenador do Semex Progressive desde Janeiro de 2010.

 

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